sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

Godzilla - Uma Revitalização Surpreendente Retratando Traumas Profundos


Cresci acostumado a assistir os Tokusatsus da saudosa TV Manchete, onde monstros gigantes destruiam cidades de papelão e isopor. Essas produções japonesas, apesar da carência de efeitos especiais, cativavam com histórias dramáticas de superação e sacrifícios, tudo dentro dos limites orçamentários da época. Anos depois, ao adquirir um videocassete, fui apresentado a Godzilla em um filme que, na época, me parecia totalmente sem sentido. Confesso que não me cativou, especialmente por sentir falta dos heróis como Jaspion e Changeman, prontos para enfrentar a força da natureza.
 
Godzilla Minus One Poster - Toho Co., Ltd
 

Godzilla, ou Gojira, é reverenciado como o primeiro monstro japonês, uma alegoria dos traumas da Segunda Guerra Mundial, originado das explosões das bombas atômicas no Japão. Remontando à história dos filmes de Godzilla de 1954, essa criatura colossal ganha uma nova dimensão como símbolo do sofrimento e das cicatrizes deixadas por um conflito devastador. A narrativa original de "Gojira" reflete as preocupações do Japão pós-Segunda Guerra Mundial, destacando os horrores dos ataques nucleares em Hiroshima e Nagasaki. O monstro Godzilla é frequentemente interpretado como uma metáfora para os efeitos devastadores das armas nucleares e, mais amplamente, como uma representação dos medos e traumas associados a desastres naturais e tecnológicos.

A cinematografia do filme mais recente evoca a estética dos anos 1950 e 1960, com cores pastéis e uma trilha sonora que remete aos temas clássicos, proporcionando a sensação de uma obra antiga remasterizada para os dias atuais.

Neste filme, Godzilla é verdadeiramente uma força da natureza, um monstro maligno com a única finalidade de destruição. Ao contrário da tendência de Hollywood em pasteurizar tais personagens como "um mal necessário", aqui o espectador vivencia o drama de retornar às cidades devastadas e a discriminação enfrentada pelos soldados que não apenas perderam, mas também pelos que não se sacrificaram na guerra. O filme cria uma empatia genuína pelos personagens, fazendo-nos sentir o peso de seus sacrifícios quando o monstro surge devastando Tóquio.

Toho Co., Ltd

Em uma era de filmes com orçamentos exorbitantes e gostos questionáveis, surge uma produção com custos relativamente baixos para os padrões de Hollywood. Não é necessariamente o melhor filme de 2023, mas sim
uma agradável surpresa que revitaliza o Rei dos Monstros e, ao mesmo tempo, resgata a profunda história dos filmes originais do Godzilla e os traumas da Segunda Guerra vividos pelo Japão.

terça-feira, 9 de janeiro de 2024

Napoleão de Ridley Scott: Entre Triunfos e Desvios Históricos

 

Finalmente, assisti ao filme "Napoleão" de Ridley Scott, que busca explorar a vida e as conquistas de Napoleão Bonaparte. Minha expectativa era alta, dado o renomado diretor e a presença de Joaquim Phoenix no papel principal.

Contudo, ao assistir ao filme, o espectador não familiarizado com os detalhes da Revolução Francesa e do reinado de Napoleão pode se sentir perdido, devido à profusão de eventos históricos apresentados na tela, causando confusão em alguns momentos.

Jacques Louis David - The Coronation of Napoleon
Na minha opinião, o filme se perde ao não definir uma direção clara. O diretor parece indeciso sobre qual aspecto da vida de Napoleão explorar, tocando em vários conflitos militares e tentando abordar sua relação com Josefina. O filme destaca a ascensão do jovem capitão, sua expulsão dos ingleses do litoral francês e a supressão da rebelião monarquista de 1795. No entanto, a incursão no Egito é abordada de forma superficial. A narrativa destaca sua autocoroação como imperador, passa pela invasão desastrosa na Rússia, que resultou na maior derrota de Napoleão e em uma grande perda de vidas, culminando na abdicação do governo francês e exílio, até a fatídica Batalha de Waterloo.

O filme falha ao não explicar a motivação por trás desses conflitos, que eram, em parte, um embargo econômico para enfraquecer o Império Inglês.

A experiência de assistir a um filme dessa magnitude no cinema deveria ser impactante, mas as cenas de preparação para as batalhas geram expectativas que, muitas vezes, não são plenamente realizadas, resultando em uma experiência cinematográfica insatisfatória. Apesar do tema grandioso escolhido, a execução do filme não consegue capturar a complexidade e o impacto histórico do personagem, resultando em uma narrativa simplista e pouco satisfatória.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

Além da Maçã Envenenada - Branca de Neve e suas versões literárias

Era uma vez uma história que atravessou séculos, encantando gerações e ganhando diferentes roupagens ao longo do tempo: a história de Branca de Neve, que despertou o imaginário de muitos. Onde a versão mais famosa é a dos Irmãos Grimm, mas houveram outros que se estenderam às diversas versões literárias que a personagem protagoniza.

À medida que mergulhamos nesse universo, descobrimos que sua história é como um espelho mágico que reflete a criatividade e as nuances culturais de diferentes épocas e lugares. Partindo dos contos populares europeus até as reinterpretações modernas, cada versão revela camadas adicionais de significado e simbolismo, criando uma tapeçaria rica e complexa que transcende fronteiras e gerações, transformando numa história atemporal.

À medida que seguimos os rastros de Branca de Neve, deparamo-nos com uma galeria de personagens que ecoam as aspirações e temores de suas respectivas eras. Branca de neve não é a Princesa em perigo, é uma heroína, uma vítima e uma sobrevivente, desempenhando papéis que transcendem os limites do tempo e da fantasia.

 

 A jovem escrava 1634

Transcrita por Giambattista Basile, esta é a primeira transcrição que se conhece da fábula da Branca de Neve.

Fazia parte de um dos cinquenta contos reunidos por Basile no livro O Pentamerão - em alusão ao Decamerão de Boccacio -

Apesar de ser o primeiro registro escrito de Branca de neve, também há outros contos famosos como Rapunzel e Cinderela. Os historiadores não tem como precisar a influência desse livro para outros trabalhos europeus, visto o seu dialeto Napolitano.

Podemos inserir neste contexto a oralidade das fábulas, pois Basile precedeu Perrault em 50 anos e os Grimm em 200.

O texto A jovem escrava mostra que o tema central é o ciúme (sendo esse aspecto o que une todas as versões de Branca de Neve). Ainda assim há outros pontos que unem as demais versões:

- O número sete. - Sete Anões, Sete ladrões (no conto Maria, a madrasta má e os sete ladrões), sete caixões de cristal (A jovem escrava).

- O pente envenenado, a protagonista caindo em sono profundo (dada como morta).

Outro tema constante nas demais versões é o martírio da protagonista. (Conforme os historiadores, esse pensamento Cristão de que, para encontrar a salvação é necessário passar por provações, é claramente uma forma de passar a mensagem para as camadas mais desprivilegiadas que não importa o quanto a vida seja dura, a recompensa virá de alguma forma).

Nesta versão Lisa (Branca de Neve), recebe uma maldição de uma fada que quando completasse 7 anos, ao pentearem seu cabelo, seria esquecido um pente nele e ela morreria. Sua mãe a coloca dentro de sete caixões de cristal e deixa para que seu irmão cuide, para que nada aconteça com o corpo da menina. Com o passar do tempo acaba morrendo de desgosto.

Sua tia acaba descobrindo esse caixão e num acesso de ciúmes (por causa da idolatria do tio, seu esposo, pela menina) acaba arrancando-a do caixão pelos cabelos derrubando o pente. A menina acorda e passa por inúmeros martírios até que seu tio descobre e manda sua esposa embora.

Nessa versão, não há punição contra o mal. Fato esse que com o passar do tempo e diferentes versões, as ações da "madrasta" são punidas.


 
Branca de Neve 1812

Os Irmãos Gimm publicaram a primeira versão da Branca de Neve em 1812 no livro intitulado Contos da criança e do lar, que nada mais era que uma coletânea de diversos contos orais passados de geração a geração desde meados do século XII. Além de estudiosos do folclore eram também pesquisadores da sua língua materna cujo sonho era fazer um grande dicionário alemão.

Quando a primeira versão do livro foi lançada seu objetivo era que estudiosos a adquirissem, tanto é que a primeira edição mais parecia um trabalho acadêmico, repleta de anotações e referências.

O inesperado sucesso da obra fez com que novas edições ( ao todo 7 em vida) fossem lançadas, ocorrendo a supressão de conteúdo que ambos julgavam inadequados para crianças.

No original de 1812, quem infligia todo o sofrimento à personagem é sua própria mãe. Nas edições seguintes os autores decidem trocar para a madrasta. (com o objetivo de santificar a mãe e preservar a imagem da instituição família).

Outra mudança de 1812 ocorre no despertar da garota, quando um servo derruba o caixão.

Uma das partes que compramos quando lemos o conto é o conceito de beleza expresso pelo espelho mágico (o que é belo pra uns pode não ser belo pra outros).

Outro ponto é o caçador, que ao invés de matar Branca de Neve a deixa sozinha no meio da mata selvagem à sua própria sorte.

Pode-se entrar no mérito do antropofágico, quando a madrasta come o fígado e os pulmões, para adquirir as qualidades da menina.

Além é claro do aspecto de necrofilia (pois quase todos os príncipes apaixonam-se por uma morta).

Há dois contos Italianos:

Maria, a madrasta má, e os sete ladrões de 1870; que tem mais a ver com outro conto João e Maria, por causa do caminho de farelo de pão.

O Caixão de Cristal de 1885; que mais parece um conto de Edgar Alan Poe, pelo lado sobrenatural e por intensificar a ideia de necrofilia, pois o Rei não passa de um tirano egoísta que mataria a própria mãe por não encontrar a garota no caixão.

Outro curtíssimo conto de origem Suíça, intitulado de A morte dos sete anões de 1856. Esse mais macabro que o de cima, onde os sete anões são assassinados e a garota desaparece. 

Há outro conto, esse Escocês de 1892 intitulado "Árvore Dourada e Árvore Prateada".

Nesse não há madrasta, é a própria mãe quem tem ciúmes da filha, ao invés de um espelho mágico, há uma truta mágica, em vez do pente envenenado há uma agulha, e como conto oral, adapta-se ao local em que está sendo contado, fato esse que contempla a poligamia das personagens.

A Branca de Neve pode ser comparada com a Bela Adormecida, alguns historiadores dizem que as duas histórias podem ter sido a mesma, mas que com a oralidade e o passar do tempo tomaram caminhos diferentes pela Europa.

Para o bem ou para o mal, não podemos deixar de falar da versão de Disney (1937) em que popularizou a fábula da Branca de Neve.


Bibliografia:

Branca de Neve, Os Contos Clássicos, seleção de Alexandre Callari.

Contos dos Irmãos Grimm, organização Clarissa Pinkola Estés.

www.grimmstories.com

Texto extraído e adaptado de:  http://confrariareinacoesdecaxias.blogspot.com/search?q=branca+de+neve