Além da Maçã Envenenada - Branca de Neve e suas versões literárias
Era
uma vez uma história que atravessou séculos, encantando gerações
e ganhando diferentes roupagens ao longo do tempo: a história de
Branca de Neve, que despertou o imaginário de muitos. Onde a versão
mais famosa é a dos Irmãos Grimm, mas houveram outros que se
estenderam às diversas versões literárias que a personagem
protagoniza.
À
medida que mergulhamos nesse universo, descobrimos que sua história
é como um espelho mágico que reflete a criatividade e as nuances
culturais de diferentes épocas e lugares. Partindo dos contos
populares europeus até as reinterpretações modernas, cada versão
revela camadas adicionais de significado e simbolismo, criando uma
tapeçaria rica e complexa que transcende fronteiras e gerações,
transformando numa história atemporal.
À
medida que seguimos os rastros de Branca de Neve, deparamo-nos com
uma galeria de personagens que ecoam as aspirações e temores de
suas respectivas eras. Branca de neve não é a Princesa em perigo, é
uma heroína, uma vítima e uma sobrevivente, desempenhando papéis
que transcendem os limites do tempo e da fantasia.
A
jovem escrava 1634
Transcrita
por Giambattista Basile, esta é a primeira transcrição que se
conhece da fábula da Branca de Neve.
Fazia
parte de um dos cinquenta contos reunidos por Basile no livro O
Pentamerão - em alusão ao Decamerão de Boccacio -
Apesar
de ser o primeiro registro escrito de Branca de neve, também há
outros contos famosos como Rapunzel e Cinderela. Os historiadores não
tem como precisar a influência desse livro para outros trabalhos
europeus, visto o seu dialeto Napolitano.
Podemos
inserir neste contexto a oralidade das fábulas, pois Basile precedeu
Perrault em 50 anos e os Grimm em 200.
O
texto A jovem escrava mostra que o tema central é o ciúme (sendo
esse aspecto o que une todas as versões de Branca de Neve). Ainda
assim há outros pontos que unem as demais versões:
-
O número sete. - Sete Anões, Sete ladrões (no conto Maria, a
madrasta má e os sete ladrões), sete caixões de cristal (A jovem
escrava).
-
O pente envenenado, a protagonista caindo em sono profundo (dada como
morta).
Outro
tema constante nas demais versões é o martírio da protagonista.
(Conforme os historiadores, esse pensamento Cristão de que, para
encontrar a salvação é necessário passar por provações, é
claramente uma forma de passar a mensagem para as camadas mais
desprivilegiadas que não importa o quanto a vida seja dura, a
recompensa virá de alguma forma).
Nesta
versão Lisa (Branca de Neve), recebe uma maldição de uma fada que
quando completasse 7 anos, ao pentearem seu cabelo, seria esquecido
um pente nele e ela morreria. Sua mãe a coloca dentro de sete
caixões de cristal e deixa para que seu irmão cuide, para que nada
aconteça com o corpo da menina. Com o passar do tempo acaba morrendo
de desgosto.
Sua
tia acaba descobrindo esse caixão e num acesso de ciúmes (por causa
da idolatria do tio, seu esposo, pela menina) acaba arrancando-a do
caixão pelos cabelos derrubando o pente. A menina acorda e passa por
inúmeros martírios até que seu tio descobre e manda sua esposa
embora.
Nessa
versão, não há punição contra o mal. Fato esse que com o passar
do tempo e diferentes versões, as ações da "madrasta"
são punidas.
Branca
de Neve 1812
Os
Irmãos Gimm publicaram a primeira versão da Branca de Neve em 1812
no livro intitulado Contos da criança e do lar, que nada mais era
que uma coletânea de diversos contos orais passados de geração a
geração desde meados do século XII. Além de estudiosos do
folclore eram também pesquisadores da sua língua materna cujo sonho
era fazer um grande dicionário alemão.
Quando
a primeira versão do livro foi lançada seu objetivo era que
estudiosos a adquirissem, tanto é que a primeira edição mais
parecia um trabalho acadêmico, repleta de anotações e referências.
O
inesperado sucesso da obra fez com que novas edições ( ao todo 7 em
vida) fossem lançadas, ocorrendo a supressão de conteúdo que ambos
julgavam inadequados para crianças.
No
original de 1812, quem infligia todo o sofrimento à personagem é
sua própria mãe. Nas edições seguintes os autores decidem trocar
para a madrasta. (com o objetivo de santificar a mãe e preservar a
imagem da instituição família).
Outra
mudança de 1812 ocorre no despertar da garota, quando um servo
derruba o caixão.
Uma
das partes que compramos quando lemos o conto é o conceito de beleza
expresso pelo espelho mágico (o que é belo pra uns pode não ser
belo pra outros).
Outro
ponto é o caçador, que ao invés de matar Branca de Neve a deixa
sozinha no meio da mata selvagem à sua própria sorte.
Pode-se
entrar no mérito do antropofágico, quando a madrasta come o fígado
e os pulmões, para adquirir as qualidades da menina.
Além
é claro do aspecto de necrofilia (pois quase todos os príncipes
apaixonam-se por uma morta).
Há
dois contos Italianos:
Maria,
a madrasta má, e os sete ladrões de 1870;
que tem mais a ver com outro conto João e Maria, por causa do
caminho de farelo de pão.
O
Caixão de Cristal de 1885;
que mais parece um conto de Edgar Alan Poe, pelo lado sobrenatural e
por intensificar a ideia de necrofilia, pois o Rei não passa de um
tirano egoísta que mataria a própria mãe por não encontrar a
garota no caixão.
Outro
curtíssimo conto de origem Suíça, intitulado de A
morte dos sete anões de 1856. Esse
mais macabro que o de cima, onde os sete anões são assassinados e a
garota desaparece.
Há
outro conto, esse Escocês de 1892 intitulado "Árvore
Dourada e Árvore Prateada".
Nesse
não há madrasta, é a própria mãe quem tem ciúmes da filha, ao
invés de um espelho mágico, há uma truta mágica, em vez do pente
envenenado há uma agulha, e como conto oral, adapta-se ao local em
que está sendo contado, fato esse que contempla a poligamia das
personagens.
A
Branca de Neve pode ser comparada com a Bela Adormecida, alguns
historiadores dizem que as duas histórias podem ter sido a mesma,
mas que com a oralidade e o passar do tempo tomaram caminhos
diferentes pela Europa.
Para
o bem ou para o mal, não podemos deixar de falar da versão de
Disney (1937) em que popularizou a fábula da Branca de Neve.
Bibliografia:
Branca
de Neve, Os Contos Clássicos, seleção de Alexandre Callari.
Contos
dos Irmãos Grimm, organização Clarissa Pinkola Estés.
www.grimmstories.com
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