segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

Além da Maçã Envenenada - Branca de Neve e suas versões literárias

Era uma vez uma história que atravessou séculos, encantando gerações e ganhando diferentes roupagens ao longo do tempo: a história de Branca de Neve, que despertou o imaginário de muitos. Onde a versão mais famosa é a dos Irmãos Grimm, mas houveram outros que se estenderam às diversas versões literárias que a personagem protagoniza.

À medida que mergulhamos nesse universo, descobrimos que sua história é como um espelho mágico que reflete a criatividade e as nuances culturais de diferentes épocas e lugares. Partindo dos contos populares europeus até as reinterpretações modernas, cada versão revela camadas adicionais de significado e simbolismo, criando uma tapeçaria rica e complexa que transcende fronteiras e gerações, transformando numa história atemporal.

À medida que seguimos os rastros de Branca de Neve, deparamo-nos com uma galeria de personagens que ecoam as aspirações e temores de suas respectivas eras. Branca de neve não é a Princesa em perigo, é uma heroína, uma vítima e uma sobrevivente, desempenhando papéis que transcendem os limites do tempo e da fantasia.

 

 A jovem escrava 1634

Transcrita por Giambattista Basile, esta é a primeira transcrição que se conhece da fábula da Branca de Neve.

Fazia parte de um dos cinquenta contos reunidos por Basile no livro O Pentamerão - em alusão ao Decamerão de Boccacio -

Apesar de ser o primeiro registro escrito de Branca de neve, também há outros contos famosos como Rapunzel e Cinderela. Os historiadores não tem como precisar a influência desse livro para outros trabalhos europeus, visto o seu dialeto Napolitano.

Podemos inserir neste contexto a oralidade das fábulas, pois Basile precedeu Perrault em 50 anos e os Grimm em 200.

O texto A jovem escrava mostra que o tema central é o ciúme (sendo esse aspecto o que une todas as versões de Branca de Neve). Ainda assim há outros pontos que unem as demais versões:

- O número sete. - Sete Anões, Sete ladrões (no conto Maria, a madrasta má e os sete ladrões), sete caixões de cristal (A jovem escrava).

- O pente envenenado, a protagonista caindo em sono profundo (dada como morta).

Outro tema constante nas demais versões é o martírio da protagonista. (Conforme os historiadores, esse pensamento Cristão de que, para encontrar a salvação é necessário passar por provações, é claramente uma forma de passar a mensagem para as camadas mais desprivilegiadas que não importa o quanto a vida seja dura, a recompensa virá de alguma forma).

Nesta versão Lisa (Branca de Neve), recebe uma maldição de uma fada que quando completasse 7 anos, ao pentearem seu cabelo, seria esquecido um pente nele e ela morreria. Sua mãe a coloca dentro de sete caixões de cristal e deixa para que seu irmão cuide, para que nada aconteça com o corpo da menina. Com o passar do tempo acaba morrendo de desgosto.

Sua tia acaba descobrindo esse caixão e num acesso de ciúmes (por causa da idolatria do tio, seu esposo, pela menina) acaba arrancando-a do caixão pelos cabelos derrubando o pente. A menina acorda e passa por inúmeros martírios até que seu tio descobre e manda sua esposa embora.

Nessa versão, não há punição contra o mal. Fato esse que com o passar do tempo e diferentes versões, as ações da "madrasta" são punidas.


 
Branca de Neve 1812

Os Irmãos Gimm publicaram a primeira versão da Branca de Neve em 1812 no livro intitulado Contos da criança e do lar, que nada mais era que uma coletânea de diversos contos orais passados de geração a geração desde meados do século XII. Além de estudiosos do folclore eram também pesquisadores da sua língua materna cujo sonho era fazer um grande dicionário alemão.

Quando a primeira versão do livro foi lançada seu objetivo era que estudiosos a adquirissem, tanto é que a primeira edição mais parecia um trabalho acadêmico, repleta de anotações e referências.

O inesperado sucesso da obra fez com que novas edições ( ao todo 7 em vida) fossem lançadas, ocorrendo a supressão de conteúdo que ambos julgavam inadequados para crianças.

No original de 1812, quem infligia todo o sofrimento à personagem é sua própria mãe. Nas edições seguintes os autores decidem trocar para a madrasta. (com o objetivo de santificar a mãe e preservar a imagem da instituição família).

Outra mudança de 1812 ocorre no despertar da garota, quando um servo derruba o caixão.

Uma das partes que compramos quando lemos o conto é o conceito de beleza expresso pelo espelho mágico (o que é belo pra uns pode não ser belo pra outros).

Outro ponto é o caçador, que ao invés de matar Branca de Neve a deixa sozinha no meio da mata selvagem à sua própria sorte.

Pode-se entrar no mérito do antropofágico, quando a madrasta come o fígado e os pulmões, para adquirir as qualidades da menina.

Além é claro do aspecto de necrofilia (pois quase todos os príncipes apaixonam-se por uma morta).

Há dois contos Italianos:

Maria, a madrasta má, e os sete ladrões de 1870; que tem mais a ver com outro conto João e Maria, por causa do caminho de farelo de pão.

O Caixão de Cristal de 1885; que mais parece um conto de Edgar Alan Poe, pelo lado sobrenatural e por intensificar a ideia de necrofilia, pois o Rei não passa de um tirano egoísta que mataria a própria mãe por não encontrar a garota no caixão.

Outro curtíssimo conto de origem Suíça, intitulado de A morte dos sete anões de 1856. Esse mais macabro que o de cima, onde os sete anões são assassinados e a garota desaparece. 

Há outro conto, esse Escocês de 1892 intitulado "Árvore Dourada e Árvore Prateada".

Nesse não há madrasta, é a própria mãe quem tem ciúmes da filha, ao invés de um espelho mágico, há uma truta mágica, em vez do pente envenenado há uma agulha, e como conto oral, adapta-se ao local em que está sendo contado, fato esse que contempla a poligamia das personagens.

A Branca de Neve pode ser comparada com a Bela Adormecida, alguns historiadores dizem que as duas histórias podem ter sido a mesma, mas que com a oralidade e o passar do tempo tomaram caminhos diferentes pela Europa.

Para o bem ou para o mal, não podemos deixar de falar da versão de Disney (1937) em que popularizou a fábula da Branca de Neve.


Bibliografia:

Branca de Neve, Os Contos Clássicos, seleção de Alexandre Callari.

Contos dos Irmãos Grimm, organização Clarissa Pinkola Estés.

www.grimmstories.com

Texto extraído e adaptado de:  http://confrariareinacoesdecaxias.blogspot.com/search?q=branca+de+neve

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